NO ALTO DO CRUZEIRÃO, OS LOBISOMENS AINDA UIVAM!
Boa Nova – Rio de Chico Mendonça, Outros Tempos: Encantamentos Outros!
“Lavar Roupa Todo Dia – Que Alegria” – Dona Maria, Dona Flor, Dona Luzia, Dona Argemira, Dona Augusta, Dona Lúcia, Dona Sebastiana, Dona Carolina, Dona Joana, Dona Germina, Dona Ana...
É Manhã de Primavera, e a Correnteza do Rio Compõe Nova e Definitiva Canção!
O Sabão ainda não é em pó, e é a Pedra de Anil que deixa Alvíssimo o Lençol, e o Altíssimo tece uma Nova Manhã para as Lavadeiras Boanovenses!
Entre um “causo” e outro, o tempo passa tão apressadamente, que a gente nem sente!
“Causos” de homens que, no Alto do Cruzeirão, viram “lobisomens” em noites de lua cheia e da Mãe D’água que, com seu Canto Mavioso, seduz e leva para "outras águas" homens na flor da idade!
- Comadre Maria, você trouxe uma cachacinha temperada?
- Oh, "tá" aqui, mulher!
- Comadre Joana, quem você acha que ganha as eleições este ano: Seu Menezes ou seu Érico?
- Sei não, comadre – a Caatinga “tá” em peso com seu Érico, mas dizem que a Mata inteira vota em Seu Menezes e dizem também que desta vez, a “Sede” está em cima do muro!
- Comadre, eu acho que desta vez, o “pau de resposta” vem mesmo é das urnas do “Areião” - dizem que lá, só dá Seu Menezes!
- Que nada, Comadre Maria – o “pau de resposta” vem é do Valentim – e lá, só dá seu Érico!
- Sendo Assim, só nos resta esperar! Traz mais um gole dessa cachaça temperada, comadre Mariquinha!
- Também tem farofa de carne assada que comadre Geralda trouxe!
- Eu só "tô" aqui de “bituca” - ouvindo “ocês falar” sobre as eleições! Todo mundo só fala em Seu Menezes e Seu Érico, mas se esquece que Compadre Zé Balbino vem “correndo por fora” – a Piabanha “tá” em peso com ele, gente!
- Larga de bestagem! Logo não "tá" vendo, Comadre Tonha, que a Piabanha, com “quatro gatos pingados” de eleitores, não elege nem um vereador, quanto mais o Prefeito! Desta vez, Zé Balbino, que é uma boa pessoa, eu sei, é carta fora do baralho! Um homem “servidor”, mas desta vez, ele dançou! Pra mim, vai dar Seu Menezes! Domingo é a eleição e terça-feira, a gente já deve saber quem é “Jacu Baleado!”
- Mudando de pau pra cacete! Comadre Fulô, cadê Compadre Bio? Anda Sumido!
- Bio, agora, ninguém bota mais o olho, não! É dia e noite "socado" no Cabaré de Ritão, na “tábua” do jogo: Ele, Zé Dezenove e Epaminondas! Mas deixa estar! No dia que eu acordar com a “pá virada”, invado aquele cabaré e aí, ele vai saber com quantos espinhos se faz uma Flor!
- É isso mesmo, comadre! A gente tem mais é que ficar de olho nos nossos homens, porque essas “meninas” da Rua do Urubu não estão de brincadeira! Ontem mesmo, eu vi a filha de Ritão, a tal de Rosinha Beiço Doce, na venda de Bezinho – toda siligristida, metida num vestido tão curto que, quando abaixava, dava pra gente ver a calçola! Quero que Santa Luzia me cegue, seu eu estiver mentindo!
- Descarados são eles, Comadre Sebastiana, que deixam suas mulheres em casa e vão “chamegar” na Rua do Urubu – “ELAS” estão lá pra isso mesmo – é a “profissão” delas, ora bolas! Vai procurar “seus serviços” quem "tá precisado"!
- Comadre Raimunda, não acredito que você "tá" dando razão às sirigaitas! Meu Deus, se Padre Vicente souber que você "tá" assim tão liberal, é bem capaz dele não deixar mais você comungar, comadre!
- Não se trata de liberalismo, não, Comadre Sebastiana! O que a gente tem que fazer é aprender cuidar bem dos nossos homens: Fazer o chamego certo na hora certa, pois cada momento exige um chamegar diferente e se a gente fizer tudo direitinho, como manda o figurino, eles não vão buscar chamego em outro lugar! É assim que eu trato Pedro Margarido: Carinho certo na hora certa e rédea curta! Duvido que Pedro Margarido, sequer, sonha em botar o pé no Cabaré de Ritão! "Tá" mais fácil um boi voar!
“Lavar Roupa Todo Dia - Que Alegria”
E a correnteza do Rio parece também cantar, enquanto as lavadeiras estendem seus alvíssimos lençóis, sobre as pedras hiperaquecidas pelo Sol da Boa Nova! É hora de cantar os sambas de Dorival Caymmi – pois se Comadre Anália não quiser ir, eu vou só pro Rio de Chico Mendonça, que hoje já não é mais o Rio das Lavadeiras que Lavavam Roupa Todo Dia com Alegria... Hoje, não mais a Correnteza do Rio! Agora, a Máquina de Lavar e o Sabão em Pó já são velhas novidades! Os “causos” são contados na “Rede” – Hoje, o que corre é a Tecnologia da Informação, não mais a Correnteza do Rio! Boa Nova já é Brasil, é Mundo! Hoje, Boa Nova é “ponto com”. Muitos dos seus filhos já estão até no “estrangeiro”... O Tempo do candeeiro a querosene ficou mesmo pra trás! Mas é a doce lembrança dos “bons e velhos tempos” que faz a gente ser capaz de assimilar os tais Novos Tempos! Tempo Novo que, apesar dos tais progressos, faz rios e matas desaparecerem, engolidos por complexos de titânio e vidro, que agora habitam o inconsciente coletivo! Mas nem tudo está perdido, pois quanto mais rezamos, assombrações nos aparecem, graças a Deus! Vez por outra, em Noites de Lua Cheia, ainda se ouve o Uivar de Lobisomens no Alto do Cruzeirão! As Mães D´água?! -Ah, com essas ninguém pode, não! Mesmo em tempos de “tantas revoluções”, cheias de encantamento que são, Continuam Enfeitiçando os Homens nas Águas Claras de Rios Remanescentes!
Paulo Neuman - Inverno de 2009
Foto: Tela de Cândido Portinari (Lavadeiras - 1937)
A obra Outros Tempos: Outras Correntezas de Paulo Neumam Farias Souza foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Brasil.



Neu,
ResponderExcluirNo momento em que escrevo este comentário acabo de fazer uma leitura compartilhada desse texto teu, juntamente com Vanda irmã de Zene. Gostamos muito desse texto.
Um abraço.